sábado, 19 de maio de 2018

JEREMIAS MACÁRIO - COLUNISTA VIP:



NÃO SEI POR QUE DE TANTO ESPANTO!
Jeremias Macário 
 Estudiosos no assunto, historiadores, membros da Comissão da Verdade e até mesmo vítimas da ditadura civil-militar de 1964 mostraram-se estarrecidos com o documento do Departamento de Estado dos Estados Unidos dando conta de que o ex-presidente Ernesto Geisel (1974/79) autorizou que o Centro de Inteligência do Exército (CIE) continuasse com a política de execuções sumárias do tempo de Garrastazu Médici contra opositores do regime, limitando a sanção aos mais “perigosos subversivos”.
  Confesso que não entendi o porquê de tanto espanto com a revelação, já que todos que acompanharam os acontecimentos da época sabiam muito bem que os presidentes, os comandantes e os chefes mais ligados ao esquema tinham conhecimento de todos os fatos. Ora, os generais e os que recebiam ordens lá de cima estavam “carecas” de saber que o presidente, comandante das forças armadas, estava a par de tudo.
Avassaladora e vergonhosa mesmo foi a anistia dada aos torturadores que mataram e fizeram desaparecer com muita gente durante mais de 20 anos de ditadura, quando generais, delegados e militares da cúpula ficaram impunes, enquanto os criminosos de lesa humanidade na Argentina, no Chile e no Uruguai foram para cadeia e pagaram por suas atrocidades.

  O Brasil não reagiu, deixando as feridas abertas, e agora muitos ficam espantados com o documento da CIA e pedem que, a esta altura da história, a Lei de Anistia de 1979 seja revista pelo Supremo Tribunal Federal. Mais estarrecedor é constatar que, por falta de reação, a maioria dos brasileiros, principalmente os jovens, desconhece o que houve na época e até tem pessoas que não acreditam que existiu a tal ditadura como contada com tanto horror e barbaridade.
  Não acredito que a Lei seja reexaminada, como cogita o professor de Direito Internacional da Universidade de São Paulo, Pedro Dallari, e coordenador da Comissão da Verdade, criada no governo Dilma Rousseff. Passados 30 anos, por capricho dos generais, muitos arquivos nem foram abertos e até negam que cometeram crimes de tortura. Também não deram importância para o que registrou a Comissão.
 Memorando de 11 de abril de 1974, assinado pelo diretor da CIA, WilllianColby e enviado ao então secretário de Estado Henry Kissinger, afirma que Geisel disse ao chefe do Serviço Nacional de Informação (SNI) à época João Baptista Figueiredo (presidente de 1979/85) que as execuções deveriam continuar, mas só para os “perigosos”. Nessa época, a CIA mandava e desmandava aqui dentro e se infiltrava nos movimentos. A nação nunca foi tão subjugada aos Estados Unidos.
  A este respeito, ouvi nesta semana um comentário ingênuo, ou tendencioso, que não acredita na ordem de execuções dada por Geisel porque, conforme justifica o elemento, quando Vladimir Herzog foi assassinado na prisão, o presidente admoestou o comandante do II Exército e demitiu, pessoalmente, em São Paulo, o general Ednardo quando mataram o metalúrgico Manoel Fiel Filho.
 Estas duas vítimas da ditadura não eram consideradas tão “perigosas” no conceito do presidente, que sempre foi rígido em suas ordens e ficou indignado com o exagero cometido. Os generais não o consultaram e foram além da sua recomendação, sem contar que agiram de forma muito escancarada, deixando pistas bem evidentes. Ele foi questionado na sua hierarquia. A interpretação de que Geisel não deu ordem e nem sabia é típica de defensor do regime.
  De acordo com o documento, Geisel e Figueiredo concordaram que quando o CIE detivesse alguém que poderia cair na categoria de “perigoso”, o chefe do Centro de Inteligência do Exército deveria consultar o Chefe do SNI que, por sua vez, deveria ter aprovação do Palácio do Planalto, para a execução. O acerto foi em 30 de março de 1974 entre Geisel, Figueiredo e os generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino.
  Naquele período, “perigosos” mesmo eram os 33 guerrilheiros ainda vivos na região do Araguaia, dentre os quais cinco baianosVandick Coqueiro, Uirassu de Assis Batista, José Lima Piauhy e Dinalva Oliveira Teixeira. Até hoje não há registro dos corpos, nem as circunstâncias em que desapareceram. A versão era de que as violações e os assassinatos eram “coisas dos porões da ditadura”.
 Até hoje a maioria dos militares oficiais se vangloria das matanças praticadas no Araguaia com requintes de crueldades, dizendo que aquela gente, do PC do B, não passava de terrorista. Mesmo presos em poder do Estado, todos foram sumariamente executados. As torturas não se limitavam aos guerrilheiros, mas a todos os ribeirinhos e aldeões da região.
 Na época da terceira expedição, entre 73/74, os militares recrutaram jovens de 17 e 18 anos e torturaram, justificando que era um meio deles terem resistência para suportarem os interrogatórios dos inimigos. Testemunhos das barbáries contam que eles deixavam os recrutas nus em formigueiros e expostos a todo tipo de insetos dentro dos matos. Muitos chegaram a ser estuprados por oficiais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário