domingo, 21 de janeiro de 2018

NANDO DA COSTA LIMA - COLUNISTA VIP:

Um causo de amor partido
           
Nando da Costa Lima
Deoclécio estava irritadíssimo, mas não era pra menos. Logo Marilourdes, que pregava nos quatro cantos da cidade que era apaixonada por ele, foi fazer aquilo. O amor entre os dois parecia indissolúvel, até nas “caçola” Marilourdes mandou bordar “D” de Deoclécio e o “M” do nome dela. Todo mundo achava a coisa mais linda. Deo já tava com mais de uma semana de cachaça, só fazia isso! Tava de dar pena... Mas a safada da noiva foi dar pro cantor da boate dentro do banheiro das mulheres. O caso se tornou público e Deoclécio acordou com aquela sina que com certeza o acompanharia por toda vida.  Sua amada noiva deu pra Jerry Bocão, o cantor da banda de forró Amansa Corno. O local que a safada escolheu tornou o caso ainda mais escandaloso. No banheiro da boate, aquilo não era coisa de gente que se preze! Foi uma desfeita tão grande que ele quase virava padre, nesse tempo ainda se entrava pro seminário quando se tinha um grande desgosto! Mas ele era muito macho pra se esconder atrás de uma batina só por causa de uma piranha safada que o traiu com um cantor de terceira. Ele não ia dar o braço a torcer, ia dar a volta por cima e mostrar pro resto da cidade que quem saiu perdendo foi ela...
Tomou logo um banho de loja e se picou pra capital pra esfriar a cabeça. Tava ficando paranoico, não podia ficar só que lhe vinha em mente sua ex-noiva toda pura dando uma rapidinha num canto duma boate, que por acaso era sua. Tá certo que qualquer um pode levar chifre, mas nos anos 70, numa cidade pequena... era foda! E ele era o rei do pedaço, pegava toda menina que se sobressaía. Era um galã na época. Porte atlético, vozeirão, bonito, mas caiu na infelicidade de se apaixonar pela mulher errada. Era o jeito passar uns seis meses em Salvador pra tirar a urucubaca e voltar botando pra lascar. Não seria Deoclécio “comedô” que ficaria chorando pelos cantos só porque tomou um corno, o negócio dele era dar a volta por cima. Marilourdes já tinha caído na real, sabia da besteira que tinha feito. Aquela porra de cantor nem trepar sabia, ô tempo perdido! Mas naquelas alturas do campeonato não tinha santo que podia ajudar a noiva arrependida. Quem tentava acalmar a moça a encontrava abatida e chorosa, mostrando o enxoval completo vindo da Zona Franca de Manaus... Segundo os mais chegados, ela ia acabar morrendo, pois não comia nem dormia, a única coisa que consumia era água. A tragédia tava traçada: De um lado, uma noiva arrependida falando pros quatro cantos que ia se matar se perdesse Deoclécio; do outro, o noivo que estava irredutível. Com aquela piranha de banheiro ele jamais se casaria. E não ia dar certo mesmo, os pais de Deoclécio ameaçaram deserda-lo caso ele voltasse a conviver com aquela puta de boate. O povo só falava daquilo, e Deoclécio deu uma entrevista na rádio falando que ia abandonar aquela cidade que lhe causou vergonha. Ninguém mais respeitava o “pleiboi”, onde quer que passasse alguém logo gritava: “Lá vai o corno do banheiro!”. Ele já nem mais rebatia a grosseria! Um filho de família tradicional na política local não podia nem pensar em retornar pros braços daquela vagabunda.
Então, como já foi dito, Deoclécio foi pra Salvador mudar de ares... e ela lá, jogada em cima do enxoval e chorando dia após dia. Tava de dar pena! Mas não tinha jeito: deu dentro do banheiro! Se fosse um europeu podia até ser perdoada, mas um catingueiro, criado com carne de bode não tinha perdão, ia ficar marcado pro resto da vida. Só se casasse e mudasse pro Japão. Mas nem isso faria a cidade esquecer aquela safadeza que chamou tanta atenção por envolver dois jovens de famílias importantes. Era tido como certo que nos próximos anos ele seria prefeito e ela a primeira dama da cidade, um casal lindo. Pra aliviar as coisas, a família a levou numa psicóloga que relatou que era um caso seríssimo e quase incurável, até hoje na história da Medicina não se encontrou a cura para tal mal. Até o termo para se referir à doença foi a doutora que criou: “Psicopiranhisse Banherofóbica”. O paciente portador desse mal só sente prazer se transar em banheiros.
E assim a família se livrou de ter uma piranha na casa, aquilo não passou de uma crise psicótica. Quanto a ele, passou um tempo na capital e voltou casado pra se candidatar a prefeito na próxima eleição. E Marilourdes vivia pelas ruas jurando pra todo mundo que encontrava que nunca mais trairia seu homem... Endoidou de tudo. Ficou louca de paixão... E isso até ajudou o ex-noivo a crescer na carreira política.

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