sábado, 4 de agosto de 2018

NANDO DA COSTA LIMA - COLUNISTA VIP:



FALE PRO POETA QUE EU MORRI
Nando da Costa Lima           
 Cremildo Silva do Espírito Santo. Como o grande poeta, fazia questão de frisar que seu nome era um verso alexandrino. Mas do poeta ele só tinha esses pequenos hábitos, gostar de poesia e falar que o nome era um dodecassílabo... Porque a poesia de Cremildo lembrava discurso de político em velório. Dava vontade de sair correndo! A vida do poeta sempre foi cheia de surpresas... Nem ele sabia que tinha o “dom”! Só descobriu depois que conseguiu parar de beber por uma semana e, na depressão da abstinência, pegou o caderno da irmã mais nova, daqueles de doze matérias, e encheu de versos em apenas dois dias de insônia... Mostrou primeiro pra esposa, que não entendeu nada, mas só por ele estar tentando parar com aquela cachaça horrorosa, deu a maior força. Tem mulher que merece virar santa, mas as dos poetas já nascem santas! O ex-biriteiro se animou e correu pra casa do seu padrinho com o manuscrito debaixo do braço. Já chegou dando a notícia: “Parei de beber, vou virar escritor”, e apresentou o manuscrito pro pobre do velho, que caiu na besteira de ler e corrigir alguns erros de concordância. Desse dia em diante ele se tornou o revisor e patrocinador oficial da obra do poeta e afilhado. Depois do terceiro livro, Seu Gerôncio já não aguentava mais. O afilhado parou de beber e endoidou. Tava lançando uma média de 12 livros por ano, era a inspiração encarnada! E era o padrinho quem tinha que revisar e patrocinar todos, ou seja, tinha que ler aquela porra querendo ou não. O casal de idosos já não estava suportando aquela tortura quase que diária. O velho já estava sendo tratado com antidepressivos.
            Numa bela tarde, o poeta chegou na casa do padrinho com o manuscrito do vigésimo volume da série: “Sonetos Atômicos”. Seu Gerôncio, na hora que escutou a voz do afilhado, fechou os olhos e começou a roncar como se estivesse em altos sonos, mesmo estando sentado num tamborete. Cremildo puxou uma cadeira, se sentou e falou pra madrinha que ia esperar o padrinho acordar... Dona Eunice, também já cansada da cara do afilhado, ficou nervosa. Até ele notou! Educadamente, Cremildo perguntou o motivo daquela tremedeira. A velha se retou e abriu o jogo: “O culpado ‘deu’ estar assim é você, com esses livros que ninguém lê. Gerôncio já tá tomando remédio tarja preta por sua causa, e só você não nota. É tanto livro que até a comitiva de poetas de Poções, que sempre defendeu a classe dos escritores, parou de vir pros lançamentos. Quem é que aguenta? Um livro de quase 500 páginas todo mês... Cremildo, Cremildo, toma uma tenência na vida, para de encher o saco dos outros com essas porcarias que ninguém lê... Agora que você tá sem beber, podia até arrumar um emprego pra ocupar o tempo, você não vai precisar pegar peso”.
            O poeta ficou ressentido.Pegou o manuscrito e voltou pra casa. Resolveu reler a obra, estava inseguro. Será que sua poesia era tão enfadonha? No quarto capítulo do primeiro volume ele já pensou em tomar uma, quando começou a ler o quinto volume já estava de volta ao copo! Pra suportar aquela merda, só bebendo. Daí por diante, não parou mais de beber. Os padrinhos deram até uma festa para ele. Ficaram alegres por terem se livrado daquele doido recitando dentro das panelas e rodando o fogão quase todo dia. Sem falar do desodorante vencido! E Cremildo jogou toda a culpa daquela cachaça prosa ruim pra cima dos “ignorantes” que não conseguiram entender seus sonetos... E tome cachaça pra dentro! O dono do buteco falou que ele tinha voltado ao copo com tanta dedicação porque foi reler a própria obra e não entendeu porra nenhuma. Mas é mentira, ele só não entendeu os 13 primeiros volumes.
            Foi depois de muito tempo que um intelectual da noite relacionou um verso dele com o minimalismo. Daí em diante toda aquela chatice, que quase endoida um casal de idosos e botou uma comitiva de poetas pra sumir, tornou-se minimalistamente chic! O homem até recuperou a autoestima e voltou a escrever. Aí lascou! Além de cachaceiro inveterado, poeta! Os padrinhos, na hora que souberam que ele tinha voltado a escrever “com todo o gás”, se mudaram pra São Paulo e nem deixaram o endereço. Viajaram às pressas, o rapaz que ficou tomando conta da casa, já com a placa de “Vende-se”, ainda perguntou pra Seu Gerôncio o que era pra falar pro afilhado quando ele aparecesse. O velho respondeu apressadamente, já entrando no ônibus: “Fale pro poeta que eu morri”.

P.S.  Brinco com os poetas porque faço parte da comitiva.

Nando da Costa Lima

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