SÃO
PAULO, SP, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Os 78 quilos de ouro
apreendidos pela Polícia Federal na tarde desta quarta-feira (4) em
Sorocaba, no interior de São Paulo, pertencem à empresa FD Gold, uma
distribuidora de valores (DTVM) do empresário Dirceu Frederico Sobrinho.
O carregamento é estimado em cerca de R$ 23 milhões.
Dirceu
Sobrinho foi filiado ao PSDB e, em 2018, chegou a concorrer como
primeiro suplente do senador Flecha Ribeiro, pelo estado do Pará. PSDB é
o mesmo partido do governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, e do
ex-governador João Doria, ambos em campanhas eleitorais neste momento.
Procurado
pela reportagem desde a manhã desta quinta-feira (5), o empresário não
respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.
O
carregamento de ouro apreendido pela PF estava sendo escoltado por um
grupo de policiais militares paulistas, dois deles lotados na Casa
Militar, a unidade da Polícia Militar de São Paulo instalada dentro do
Palácio dos Bandeirantes e responsável pela segurança dos governadores,
entre outras funções.
Os
PMs estavam em dois veículos, ambos Toyota Corolla, e registrados em
nome da FD Gold. Integrantes da cúpula da Segurança Pública de São Paulo
ouvidos pela reportagem afirmam que os PMs relataram aos superiores que
estavam a serviço dessa empresa.
Em mensagem enviada aos colegas
oficiais, o tenente-coronel Marcelo Tasso, que participava da escolta,
disse que estava lá a convite do dono de uma DTVM, "devidamente legal",
conhecido (não citou nome) que havia solicitado a ele a indicação de
dois policiais para fazer a operação de transporte.
"Como a carga é
de valor muito elevado, pediram para irmos até a delegacia da PF para
conferência, o que foi feito. Mas, devido a existência de mais de mil
documentos relativos (notas fiscais, etc), isto demorou demais e também
realizaram as oitivas de todos", disse o oficial lotado da Casa Militar.
De
acordo com a PM, ele está afastado das funções desde de dezembro em
processo de ir para reserva. "Foi constatado que tudo estava devidamente
documentado, mas por padrão irá para perícia. Ninguém foi indiciado,
não restando nenhuma consequência para nós. Apenas a empresa que fará as
tratativas necessárias com a PF", diz mensagem.
Em nota
distribuída na manhã desta quinta (5), a Polícia Federal afirma que
agentes da instituição monitoravam a aterrissagem de um avião particular
King Air (turboélice) no aeroporto estadual de Sorocaba. E, com o apoio
da Polícia Militar Rodoviária, eles abordaram dois veículos Corollas,
na rodovia Castelo Branco, próximo ao km 74, sentido capital.
Dentro
dos veículos foram encontradas três malas contendo as barras de ouro e,
também, uma quarta mala com documentos diversos. Todas apreendidas.
"Seis suspeitos foram conduzidos à delegacia da PF em Sorocaba, e
instaurado inquérito policial para apurar a possível prática dos crimes
de usurpação de bens da União e receptação dolosa", diz a nota.
Ainda
de acordo com a PF, os documentos apreendidos apontam que o ouro seria
proveniente do Mato Grosso e Pará. "O metal foi encaminhado para
realização de perícia em laboratório específico da PF. Por tratar-se de
ouro, o valor da apreensão soma cerca de R$ 23 milhões", diz.
A PF
afirma, ainda, que o avião utilizado no transporte do ouro também foi
apreendido porque é objeto de sequestro criminal em outro inquérito
policial. "As circunstâncias da utilização proibida da aeronave serão
apuradas."
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, foi
elaborado um boletim de ocorrência para averiguar a extração irregular
de minério. Além disso, a Corregedoria da Polícia Militar acompanha a
investigação.
Em 2018, a PF e o MPF (Ministério Público Federal)
realizaram a Operação Levigação, para tentar combater a lavagem de ouro
clandestina no Pará, que resultou no bloqueio judicial de R$ 187 milhões
de bens dos investigados
Um deles era o empresário Dirceu
Frederico Sobrinho, proprietário da D'Gold. Na época, a PF cumpriu
mandados de busca e apreensão nos escritórios da D'Gold em Itaituba e em
São Paulo.
Procurada, a Secretaria da Segurança Pública de São
Paulo disse que "os fatos citados foram registrados e são apurados pela
Polícia Federal". "A Corregedoria da Polícia Militar acompanha as
investigações e, se constatada alguma irregularidade, as medidas
cabíveis serão adotadas", diz nota.
Em nota, a Casa Militar disse
que afastou imediatamente o sargento e que o tenente está afastado desde
outubro do ano passado "para cumprir licenças pendentes para a sua
aposentadoria".
"A ocorrência foi encaminhada para a Corregedoria da Polícia Militar abrir investigação", diz trecho da nota.
Ainda
segundo a Casa Militar, é de "conhecimento público" que o empresário
"mantém relações constantes com a cúpula do governo federal para
defender interesses do garimpo e da mineração".
Em nota, o diretório do PSDB de São Paulo afirmou que Dirceu Sobrinho não consta nos quadros do partido.
Outros casos
Não é a primeira vez que ouro é apreendido em aviões no país.
Em
agosto do ano passado, a PF apreendeu 52 kg do metal em barras no
aeroporto do Campo de Marte, na zona norte paulistana. De acordo com a
polícia, a carga não tinha documentação fiscal e a perícia apontou
indícios de que o minério tinha vindo de áreas de garimpo clandestino no
norte do país. De acordo com a PF, parte do ouro era usado para
fabricação de joias na Itália.
Também em agosto passado, outros 39
kg de ouro (R$ 11 milhões na cotação da época) estavam em uma mala
encontrada perto de um avião de pequeno porte no aeroporto de Jundiaí
(SP). A aeronave vinha do Pará. Um suspeito foi ouvido pela polícia e
liberado em seguida. Não foi determinada a origem do produto.
Em
junho de 2019, uma carga de 110 kg de ouro (R$ 20 milhões na cotação da
época) foi apreendida no aeroporto de Goiânia em uma aeronave que teria
saído de Goiânia e, ainda de acordo com a PF, esteve no Pará e Maranhão
antes de voltar para a capital de Goiás.
Um mês antes, em 28 de
maio de 2019, outros 16 kg de ouro (R$ 2,6 milhões na cotação da época)
em barras e mais R$ 500 mil em dinheiro vivo foram apreendidos no
aeroporto de Aragarças (GO), em um avião que saiu do Pará e seguia para
Catanduva, no interior de São Paulo.